Setor do café celebra acordo Mercosul-UE; produtores de vinho relatam preocupação
Café solúvel deve ampliar presença no mercado europeu. Por outro lado, setor vitivinícola brasileiro acredita em aumento das importações
O sinal verde para o acordo entre Mercosul e União Europeia deve impactar de maneiras distintas o setores de café e vinhos do Brasil. No caso do grão, há expectativa de incremento nas exportações para o bloco. Por outro lado, o setor vitivinícola brasileiro acredita que haverá aumento dos vinhos europeus no mercado interno.
Para o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), após o acordo, os cafés solúveis e café torrado e moído terão uma redução anual das taxas de importação, chegando a zero em quatro anos. A tarifa de importação para o café solúvel brasileiro que chega na Europa é de 9% e a taxa para o produto torrado e moído é de 7,5%.
Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, observou que a União Europeia é o maior mercado para o café brasileiro, com embarques de US$ 6,5 bilhões no acumulado de janeiro a novembro de 2025, aumento de US$ 1,3 bilhão em relação a 2024. No segmento de café solúvel, o bloco é o segundo maior mercado para o Brasil, perdendo para os Estados Unidos.
Matos disse que a redução progressiva na taxação dos cafés brasileiros é fundamental para que o país aumente sua competitividade no mercado europeu, melhorando os embarques para o bloco.
“Para nós, é de fundamental relevância, porque depois de mais de 60 anos, o Brasil está perdendo a liderança em número de plantas industriais de café solúvel e capacidade de produção e exportação de café solúvel. Perdendo para o Vietnã, que já tem mais indústrias e maior capacidade, recentemente, ultrapassando o Brasil. E o Vietnã já possui acordo comercial com a União Europeia”, comparou Matos.
O Cecafé considerou ainda que o acordo entre União Europeia e Mercosul qualifica o Brasil para fechar novos acordos comerciais, inclusive bilaterais, tendo em vista o protagonismo do Brasil nas negociações, juntamente com Alemanha e Espanha.
Na área de café, o Brasil mantém negociações com o Canadá e alguns países da Ásia para ampliar a presença nesses mercados.
Mais vinhos europeus no Brasil?
O setor vitinícola relatou preocupação com o acordo entre Mercosul e União Europeia, em um comunicado conjunto do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi), Associação da Comissão Interestadual da Uva e Federação das Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho).
O Consevitis-RS afirmou no comunicado que o setor vitivinícola brasileiro será impactado diretamente pela entrada gradual de vinhos europeus no mercado nacional, com tarifas de importação reduzidas até serem extintas.
“A principal preocupação não está no acordo em si, mas na assimetria existente entre o tratamento dado ao vinho no Brasil e aquele praticado em países concorrentes”, observa o Consevitis-RS.
“Em importantes nações produtoras, como Itália, Espanha, Portugal e Argentina, o vinho recebe reconhecimento como alimento, patrimônio cultural ou nacional, além de contar com cargas tributárias mais equilibradas, políticas de incentivo, subsídios e instrumentos de proteção à produção. No Brasil, o produto segue submetido a uma elevada tributação interna e a um ambiente regulatório que compromete sua competitividade”, diz o comunicado.
Na avaliação do Consevitis-RS, se o acordo avançar sem a adoção de medidas internas de equilíbrio, há risco de aprofundamento das desvantagens competitivas já enfrentadas pelo vinho brasileiro, que já é pressionado pela concorrência de produtos importados, inclusive de países do próprio Mercosul.
“Esse impacto pode comprometer toda a cadeia produtiva, fortemente baseada na agricultura familiar, afetando milhares de famílias, cooperativas, vinícolas, além de atividades associadas como o enoturismo, que gera emprego, renda e desenvolvimento regional”, diz a instituição.
O setor defende a adoção de políticas públicas estruturantes voltadas ao setor, como a revisão da carga tributária sobre o vinho nacional, a implementação de seguro agrícola e vinícola e medidas de apoio que assegurem condições equivalentes de competição frente aos produtos importados.
“O setor vitivinícola defende a união de esforços e o diálogo permanente com as autoridades federais e demais instâncias governamentais, para que o avanço do acordo Mercosul–União Europeia venha acompanhado de políticas que garantam a competitividade, a sustentabilidade e a continuidade de uma cadeia produtiva fundamental para o desenvolvimento de diversas regiões do país”, conclui o comunicado.
Abag ressalta potencialidades do acordo
Enquanto algunas setores ainda tentam absorver os impactos do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) acredita que o pacto vai “consolidar” o bloco sul-americano “como potência energética, alimentar e ambiental, ampliando sua capacidade de promover o desenvolvimento sustentável”.
Em nota, a entidade ressaltou que o acordo também “abre novas agendas, como os combustíveis sustentáveis para aviação e o transporte marítimo, além da cooperação em mobilidade híbrida”.
Segundo a Abag, o Brasil, que já é “reconhecido como parceiro comercial confiável, tende a ampliar sua contribuição para atender à demanda europeia por cadeias produtivas descarbonizadas e sustentáveis, essenciais para o cumprimento das metas de redução de emissões”.
“Abrem-se oportunidades nas áreas de novos combustíveis e tecnologias de processos industriais, com mais cooperação do que competição, integração de inovações em serviços digitais e fortalecimento dos instrumentos da democracia”, afirmou Ingo Ploger, presidente da Abag.
Ele afirmou que agora é o momento das lideranças empresariais dos dois blocos formalizarem um “roadmap” e “visualizar uma agenda União Europeia–Mercosul para mais 25 anos”.
Fonte. https://globorural.globo.com/economia/noticia/2026/01/setor-do-cafe-celebra-acordo-mercosul-ue-produtores-de-vinho-relatam-preocupacao.ghtml
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