Apicultores do Chile apostam no Brasil para ampliar as exportações de abelhas-rainhas
Tamanho do território brasileiro e diversidade climática favorecem negócios, diz ProChile
Espremido entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes, o Chile tem 4.270 quilômetros, que se estendem do deserto do Atacama, ao norte, até a Patagônia, ao sul. Essas barreiras naturais, que deixam o país isolado geograficamente, têm gerado lucros para apicultores no comércio de abelhas-rainhas, pois as protegem contra doenças comuns, tornando-as mais saudáveis. Há anos, essas abelhas já são exportadas a países do Hemisfério Norte e agora os criadores visam o mercado brasileiro.
No início de agosto, empresários do setor provenientes de várias regiões do Chile viajaram ao Brasil. Eles participaram de reuniões, visitaram empresas e sindicatos em São Paulo e no Rio Grande do Sul, onde estiveram no 26 Seminário Estadual de Apicultura, em Sant’Ana do Livramento. O objetivo da viagem foi apresentar as abelhas-rainhas chilenas e suas qualidades, além de estreitar laços com produtores e conhecer melhor o setor apícola brasileiro.
“O Brasil é um país muito grande, então isso já abre muitas oportunidades e nos permite um grande desenvolvimento do mercado chileno. A proximidade entre os dois países e a diversidade climática brasileira são outros dois fatores relevantes. Isso nos possibilitaria fazer duas exportações de abelhas por ano, inclusive”, afirma Daniela Moriamez, coordenadora de soluções para o agro na ProChile, agência do Ministério de Relações Exteriores do Chile que promove a oferta de bens e serviços chilenos ao redor do mundo.
As exportações de material apícola vivo do Chile ainda são pequenas, mas têm crescido. Segundo a área de inteligência de mercado da Pro Chile, com informações da Direção Nacional de Aduanas, as exportações de material vivo apícola tiveram um crescimento de 101,6%, saindo de US$ 674,7 mil em 2023 para US$ 1,360 milhão em 2024. Só neste ano, de janeiro a outubro, já alcançaram US$ 1,941 milhão. As exportações de abelhas-rainhas, especificamente, chegaram a US$ 308 mil em 2024.
Atualmente, o principal importador dos insetos é o Canadá, mas o Chile também vende as abelhas-rainhas para Alemanha, França, Itália e Costa Rica.
Segundo Daniela Moriamez, as abelhas-rainhas chilenas se diferenciam das outras pelo seu comportamento mais dócil, pela alta produção de mel e grande capacidade de adaptação a diferentes climas. “Isso é muito importante e nos tem permitido enviá-las a diferentes mercados”, diz.
A porta-voz da ProChile também ressalta a inovação de exportar um produto que não é tradicional, a relevância social que a apicultura gera, e a questão ambiental. “Todos sabemos da importância das abelhas para a biodiversidade, pois elas polinizam diferentes cultivos”, observa.
Localizada na zona central do Chile, a 120 quilômetros da capital Santiago e próxima ao litoral, Villa Alemana tem um clima mediterrâneo onde predominam os bosques esclerófilos — caracterizados por plantas com folhas duras adaptadas a longos períodos de seca e calor — com espécies endêmicas e que florescem de forma escalonada.
Um ótimo ambiente para se criar abelhas por conta da sua flora diversificada, de acordo com especialistas. É o que faz o apicultor José Tomás Valdebenito, 39, no ramo há 14 anos. Interessado em expandir seus negócios, ele fez parte da missão que esteve no Brasil em agosto.
Formado em veterinária, ele é dono da Buckfast Chile, microempresa que cria abelhas buckfast, uma raça híbrida fruto do cruzamento de várias subespécies da apis melífera. Em seu criadouro, tem um laboratório habilitado para realizar inseminação artificial.
Nesse processo, Valdebenito utiliza equipamentos importados da Alemanha para selecionar as abelhas genitoras, que passam em seguida por três testes: um que identifica as mais resistentes a doenças, outro que verifica as que mais produzem mel, e um terceiro que avalia as que são menos agressivas.
Terminada essa segunda seleção, as abelhas são fecundadas com o sêmen de um zangão extraído anteriormente. “São essas as abelhas que vão nos entregar as pequenas larvas que usaremos na multiplicação em grande escala”, explica o apicultor.
Para essa etapa, a larva é levada a uma pequena cúpula, que é colocada em uma colmeia que não tem rainha. “Em cada uma das cúpulas colocamos geleia real para que a larva se alimente. Antes de a rainha nascer, as levamos para uma nova colmeia para começarem uma família por lá. A abelha-rainha nasce, voa, se fecunda de maneira natural, e volta para a sua colmeia para continuar colocando ovos durante toda a sua vida”, detalha.
Ainda segundo Valdebenito, existe uma porcentagem de abelhas-rainhas que não retorna para a sua colmeia. Um nível de fecundação abaixo de 80% é considerado um resultado ruim e, caso isso aconteça, todas as etapas são revisadas para verificar o que ocorreu.
O apicultor vende suas abelhas-rainhas para outras regiões do Chile e exporta para mercados exigentes, como União Europeia. Em média, cerca de 4 mil exemplares são enviados por ano ao exterior, por via aérea. As vendas dos insetos ao exterior só são feitas após um processo de certificação junto ao SAG (Servicio Agrícola y Ganadero).
Vendas externas
Para o envio, as abelhas-rainhas são marcadas com uma cor ainda na colmeia e colocadas em uma pequena gaiola plástica com outras cinco abelhas-operárias que a alimentam. Nessas gaiolas, transportadas em caixas de papelão, elas se alimentam com uma mistura de açúcar de confeiteiro com frutose.
No ano passado, a Buckfast Chile fez sua primeira e única exportação ao Brasil até então. “Enviamos 120 abelhas e, mesmo sendo pouco, foi algo simbólico e que nos abriu as portas para um novo mercado”, diz Valdebenito.
Em janeiro, irá enviar mais 500 abelhas para São Paulo, para serem distribuídas a outros Estados brasileiros.
Recentemente, ele se uniu a outro veterinário e a um agrônomo para criar a Buckfast Brasil. O objetivo é canalizar os pedidos de importação, cuidar de questões burocráticas e redistribuir a abelha chilena pelo país. “Já sou brasileiro! Até CPF eu tenho”, brinca o apicultor, que tem a meta de aprimorar ainda mais a seleção genética de suas abelhas-rainhas.
Faça um comentário
Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados.