Debate encerra programação especial do STF dedicada à reflexão sobre atos de 8/1
Participantes destacaram memória institucional, reconstrução e fortalecimento da democracia
Preservar a memória dos ataques de 8 de janeiro de 2023 e reforçar o compromisso com a democracia foram os eixos centrais da roda de conversa realizada no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira (8). O evento encerrou a programação especial que marca os três anos da invasão e depredação dos prédios na Praça dos Três Poderes.
Ao abrir o debate, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, destacou a necessidade de transformar o lema “8 de janeiro nunca mais” em prática concreta. Para ele, a preservação da memória deve se espalhar pela sociedade e pelas estruturas do Estado, com o fortalecimento de uma cultura baseada na liberdade e no Estado Democrático de Direito.
Na análise histórica, o professor titular de História do Brasil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Carlos Fico ressaltou que o dia 11/9/2025 – quando o ex-presidente Jair Bolsonaro e integrantes de seu governo foram condenados pela Primeira Turma do STF por golpe de Estado –, “é outra data que não vai ser esquecida pela história”, por ter sido um julgamento inédito que “rompeu com a tradição de impunidade em relação a iniciativas golpistas que, infelizmente, marcam a história do Brasil”.
O teólogo e pesquisador Ronilso Pacheco, mestre em Religião e Sociedade pela Columbia University e diretor do Instituto de Estudos da Religião (ISER), chamou atenção para a subestimação histórica do extremismo antidemocrático no Brasil. Segundo ele, por muito tempo prevaleceu a percepção de que ideias autoritárias ficariam restritas a grupos marginais, quando, na prática, ganharam espaço público e político. “Achávamos essas propostas exóticas demais para seguir adiante”, declarou.
A advogada e cientista social Juliana Maia Victoriano, mestra em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e gerente do Programa de Equidade Racial do Instituto Ibirapitanga, apresentou leituras sobre a relação entre religião, direito e democracia no contexto pós-8/1. Ela apontou a existência de narrativas que tratam decisões judiciais como perseguição religiosa, com o deslocamento do debate do campo jurídico para o moral. Nesse cenário, afirmou, “a desobediência passa a ser percebida não como um problema, mas como uma virtude”.
Pesquisador associado do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas e cofundador do portal Jota, o jornalista Felipe Recondo abordou as expectativas e críticas dirigidas ao Supremo após as eleições de 2022. “Logo depois da eleição de 2022, muita gente dizia o seguinte: ‘espera-se que o Supremo volte para sua casinha’”. Recondo atribui a expectativa ao fato de que essas pessoas talvez não entendam muito a função do Supremo. “Essa é uma dificuldade presente, entender qual é esse espaço que as pessoas esperam que o Supremo ocupe.”
No encerramento do debate, o ministro aposentado do STF Ayres Britto destacou o papel central da democracia no texto constitucional. Para ele, a Constituição de 1988 fez da democracia o “princípio dos princípios” e confiou ao Supremo a guarda última desse valor.
Programação especial
A programação do evento “8 de janeiro: um dia para não esquecer”, promovido pelo STF para marcar os três anos da data, contou ainda com a abertura da exposição “8 de janeiro: Mãos da Reconstrução”, instalada no átrio do Espaço do Servidor e aberta ao público, a exibição do documentário com o mesmo nome da mostra e a realização de uma roda de conversa com profissionais da imprensa que cobriram os ataques.
Fonte. https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/debate-programacao-para-refletir-ataques-as-sedes-dos-poderes-em-2023/
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